Internet: 18 anos como ninguém imaginou

Como a internet mudou as nossas vidas de 1995 até aos dias de hoje na análise de directores de informação e opinion leaders parceiros do SAPO.

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Alcides Vieira

Diretor de informação da SIC

No tempo em que o sapo era só um anfíbio

Alcides Vieira

Quando o SAPO nasceu, a SIC era uma criança a caminho dos três anos, com sinais evidentes de hiperactividade e de inquietude, sempre atenta à novidade, mas pouco preocupada com o risco de cair e esfolar os joelhos.

Ágeis no passo e ousados na atitude, desde cedo os seus repórteres se habituaram a saborear o prazer das grandes histórias, mas também a valorizar o trabalho que dá em consegui-las.

Tão importante como assinar a peça de abertura do jornal, era chegar com avanço ao local dos acontecimentos; mais importante do que dar a cara em direto, era sacar discretamente a "cacha" ao telefone e ter a notícia na mão primeiro do que os outros; tão decisivo como fazer a pergunta  certeira, era garantir que a resposta ficasse gravada com bom som e melhor enquadramento de imagem.

Tivessem de ir a pé ou de balão, alugassem piroga ou avião, chegar primeiro e descobrir a janela quando a porta se fechava eram procedimentos que entraram na rotina das equipas, tivessem elas de mergulhar na vida do bairro mais desgraçado de Lisboa, na rua mais sacrificada de Beirute, ou tivessem de palmilhar os salões nobres de embaixadas e presidências por esse mundo fora.

Não seria por falta de empenho dos enviados especiais ao incêndio no pinhal mais próximo ou à cimeira internacional no outro lado do planeta que o serviço não chegaria a tempo do jornal.

O verdadeiro pesadelo das equipas não era terem de acordar cedo e deitar tarde, lidar com algum desportivismo com a concorrência, aguentar com um sorriso forçado a cotovelada dada por engano ou não no meio da confusão ou da manifestação, sobreviver à passagem por campo minado.

O que invariavelmente ocupava a lista das primeiras preocupações dos repórteres eram questões técnicas e logísticas a que nenhum poderia escapar para conseguir fazer chegar as imagens ao estúdio a tempo de irem para o ar.

Porque as imagens no bolso do repórter, por únicas que fossem, não valiam nada - o que contava para lhes dar importância e valor era a sua emissão, a sua divulgação e partilha.

Que interesse tinham imagens fantásticas, únicas, exclusivos mundiais, se não conseguissem ganhar vida, saindo da cassete e voando do local onde foram recolhidas, graças ao acelerador do carro de reportagem, mas também ao feixe, ao emissor, e retransmissor, ao satélite, ao helicóptero propositadamente alugado para ir buscar segundos ou minutos delas. Muitas vezes as imagens que agora chegam num ápice através de um mero computador e da internet, apanhavam boleia na carreira da Rodoviária Nacional ou eram trazidas em mão por taxistas, pelos tripulantes da TAP,  e até discretamente em malas diplomáticas algumas chegaram.

Como chegavam, não era importante, importante era espalhá-las como o vento.
Sem imagens partilhadas nada seria tão real, tão imediato e tão próximo, porque  as imagens ajudam-nos a sentir em conjunto e a ver, para crer, como São Tomé.

Quem acreditaria na dimensão da tragédia do 11 de Setembro se não fossem aquelas imagens inacreditáveis, colhidas no preciso momento do embate dos aviões-bomba nas torres?

Que notícia teria chegado ao mundo se no dia dos massacres de Santa Cruz, em Timor, não estivesse lá um repórter com uma câmara escondida?

Se não fossem aqueles filmes, a preto e branco, feitos nos campos de concentração, o holocausto teria sido escrito da mesma maneira pela história? E a guerra do Iraque? E o estado de alma de Cardozo depois de desperdiçada a derradeira oportunidade? E a gafe do ministro?

No tempo em que a SIC nasceu, apenas três anos antes do SAPO, para fazer chegar aos estúdios uma imagem enviada de qualquer parte do pais ou do mundo era uma aventura e um pesadelo para os repórteres. Depois de percorrerem  seca e meca, nunca tinham a garantia de salvarem o dia  de trabalho, fazendo chegar todo o esforço, risco e criatividade ao destino, ou seja, a casa dos telespectadores.

Naquele tempo, fazer um directo era uma verdadeira empreitada que exigia grande investimento, planeamento, esforço e saber técnico.  Dias antes do evento se realizar, fosse rali, feira, tourada ou mera conferência de imprensa, uma equipa de exteriores, especializada  em feixes e com grande sentido de orientação e linha de vista, andava de montanha em montanha plantando o equipamento entre os emissores que haveriam de levar o sinal com a noticia lá dentro até às antenas nos céus de Monsanto, já em Lisboa, e dali num saltinho até aos estúdios em Carnaxide.

Quanto melhor se conhecia o terreno e melhor linha de vista se tivesse, menos meios técnicos seria necessário montar. Ter linha de vista era tão importante na construção da auto-estrada em que as imagens haveriam de circular como um bom orçamento para a operação.

Se era assim em terreno próximo e conhecido, onde as equipas eram por norma recebidas com simpatia, fácil será imaginar o que passava noutras paragens onde os jornalistas levantavam natural desconfiança.

Para enviar uma peça da guerra de Luanda, com imagens que mais ninguém tinha, a Cândida Pinto e o Renato de Freitas tinham de ir ao emissor da Funda, já fora da cidade, e enfrentar a verdadeira batalha de nervos ao longo da estrada esburacada e pejada de homens armados que, desconfiados, exigiam ver papéis, carro e material de reportagem, incluindo câmaras e cassetes. Era tão difícil, perigoso e angustiante chegar ao emissor da Funda, com as imagens dos combates (só o Renato sabia como protegia a câmara e onde escondia a cassete  mais valiosa) como escapar aos tiros cruzados nas ruas.

Naquele tempo alguém imaginaria que um dia todo aquelas funções de gravar, enviar e emitir sons e imagens em directo poderiam ser asseguradas por um pequeno telefone que tanto anda no bolso das calças do repórter profissional como na mochila do estudante saudita, do guerrilheiro afegão, do manifestante paulista...

Também ninguém ousaria afirmar que SAPO poderia ser muito mais do que um anfíbio.

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